Por que cursar Ciências Sociais? - Crítica à maturidade acadêmica
por Tiago Mazeti *
É fato que as ciências sociais se configuram hoje como a superação da hipocrisia, alternativa crítica ao senso comum e, claro, como um conjunto de ciências extremamente humanista que visa à resolução das dificuldades sociais do homem. Para tanto, é necessário ao estudante de ciências sociais despir-se de sua própria hipocrisia, deixar de contribuir para com o senso comum, em sua palavra e em sua conduta. Isto significa transcender aquilo que somos enquanto indivíduos inseridos numa conjuntura mundial, ou seja, transformar a humanidade numa sociedade mais humanista, que agregue e não exclua, que coopere e não explore, que respeite e não marginalize.
O esforço dispensado por nós, futuros sociólogos, tem de objetivar uma postura acadêmica para fortalecer nosso caráter profissional e nossa maturidade pessoal. Esta preocupação parece-me imprescindível para que tenhamos uma formação sólida que nos possibilite embasar metodologicamente nossas críticas, afirmações e análises.
Todavia, ainda hoje, podemos perceber em um curso de ciências sociais uma enorme debilidade no que concerne à maturidade acadêmica, ou talvez sua inexistência, quando os estudantes se negam a discutir uma ementa de aula, ou até mesmo a grade curricular de seu próprio curso, de forma organizada, tendo como princípios fundamentais a ética acadêmica, a reciprocidade de respeito e o livre direito de expressão, desde que o façamos sem esquecermos que estamos em uma faculdade cujo curso possui demandas teóricas específicas.
A idiossincrasia deste curso não abarca de maneira alguma infantilidades que em nada contribuem a interação dos estudantes, para com o processo de maturação dos debates e com a produção do conhecimento em sala de aula. Sejamos nós weberianos, positivistas ou marxistas, nossas discordâncias têm de ser resolvidas de forma acadêmica e dentro da sala de aula, com o máximo de estudantes possível, não esquecendo que, ao tentar refutar a ideologia alheia, estamos criticando, antes de mais nada, idéias e não somente pessoas.
Mas qual seria a finalidade disto? Simplesmente provar que eu enquanto indivíduo estou correto e o outro não? Que eu detenho a razão absoluta?
Quando Albert Einstein foi indagado sobre a possibilidade de aplicar na prática sua teoria da transformação da matéria em energia, respondeu: “Isso equivale a atirar em pássaros num bosque com poucas árvores e no escuro total”. Anos depois, a humanidade perceberia, de forma drasticamente desumana, que Einstein estava errado. Contudo, um bom cientista não responde a uma questão como se o que fosse dizer correspondesse a uma verdade única e intransponível. Essa é a postura ideal para quem se pretende cientista em qualquer âmbito. Ouvir o outro (o contraponto) para depois debater, tendo como objetivo o avanço científico. Com isso, ao invés de isolarmos covardemente a contraposição, devemos aproximar os pontos de vista.
Esta meta aponta inexoravelmente para a consolidação da maturidade acadêmica, o que, de forma alguma, deve ser encarado como uma tarefa fácil. É a via mais árdua. Porém, se o que buscamos não é isso, não é a superação da futilidade humana, do descaso à falta de justiça social, com base na seriedade que a vida universitária exige, então pra que estudar ciências sociais?
* Tiago Mazeti é estudante do 5º semestre de Ciências Sociais do ISCA Faculdades e presidente do Diretório Acadêmico Vinte de Maio.
Escrito por Murillo às 09h25
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